Das
quatro possíveis constelações entre pais e
filhos, a relação
entre mãe e filha é a mais intensa, delicada e permeada de
sentimentos contraditórios
Se você tem uma em casa, já deve conhecer o roteiro. Aquela menininha, que imitava seu comportamento ao se equilibrar em saltos altos ou lambuzar os lábios de batom, é a mesma garota que hoje, na adolescência, se mostra contrária a tudo que você pense, diga ou faça. Tanto é que basta um simples comentário sobre o cabelo, por mais bem intencionado que seja, para o circo pegar fogo em intermináveis discussões. Essa convivência complicada, permeada de alegrias e tristezas, de afetos e rancores, de compreensão e cobrança, não é exclusividade de sua família. Acontece em todos os lares onde residam duas mulheres nas figuras de mãe e filha. E, por incrível que possa parecer, é normal e saudável.
Para entender melhor essa história é preciso saber que a mãe é, para a filha, a primeira referência do que é ser mulher.
Por volta dos cinco anos de idade, a criança passa a perceber que, por trás daquela figura que lhe dá cuidados e proteção, existe uma mulher. Por isso é tão comum as meninas nessa idade imitarem o comportamento da mãe. Só que na fase da adolescência ocorre a grande transformação no relacionamento entre as duas, pois a garota passa a fazer forte oposição à mãe devido à necessidade de auto-afirma-ção. Daí começam a surgir os tradicionais conflitos, desencadeados por inúmeros fatores.
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Um deles é que mães e filhas são criaturas extremamente próximas, observam-se e analisam-se num nível intenso e, por isso mesmo, acabam enxergando falhas e defeitos que ninguém mais vê."E dão-se ao direito de mencioná-los", interpreta a pesquisadora e escritora americana Deborah Tennen em seu livro “Você vai sair assim? Como entender a relação entre mãe e filha” (editora Campus/ Elsevier).
Segundo ela, essa dupla de mulheres espera tanto uma da outra que a frustração é proporcionalmente grande quando as expectativas não são atingidas.
Conversa pra lá, conversa pra cá A proximidade entre elas, de acordo com a autora, é fortalecida pelas frequentes conversas e confidências trocadas ao longo da existência, algo bem diferente do que ocorre nas relações pai e filho ou pai e filha, por exemplo. Quanto mais conversam, maiores as oportunidades tanto para estabelecer ligações afetivas quanto para equívocos de comunicação e mágoas. "A conversa é a cola que mantém o relacionamento e também o explosivo que pode acabar com ele", sentencia a escritora.
As frequentes explosões durante as conversas entre elas geralmente acontecem por conta de enganos na interpretação das palavras. Onde a mãe vê cuidado, seja com a saúde ou a segurança, a filha enxerga crítica. É o caso da mulher, por exemplo, que vive sugerindo à garota maior cuidado com a influência de seu círculo de amigos. Esse comentário materno, visando proteção, é visto pela filha como uma crítica à sua falta de competência na escolha das amizades. "São essas diferentes interpretações que tornam a frustração tão comum entre elas", explica a autora.
Leia agora outros conselhos de especialistas em comportamento que podem melhorar o relacionamento entre mãe e filha.
Aprenda a falar!
Muito cuidado com meias palavras. Ao fazer um comentário ou sugestão à adolescente, expresse com todas as letras o que você quer dizer. Dessa forma, as possíveis falhas de interpretação
podem ser minimizadas.
Veja por outro prisma!
Comece a ver com outros olhos as reações exageradas de sua filha a seus conselhos ou comentários. "Para a filha, a mãe é maior do que a vida. Justamente por isso, qualquer julgamento que venha dela pode parecer uma sentença eterna", explica a pesquisadora americana. Filme repetido: cada dupla de mãe e filha é reeditada na geração seguinte. Portanto, dificuldades e conflitos devem ser elaborados e trabalhados para não se repetirem mais adiante.
Conte sua história!
Aproveite as situações do dia-a-dia para revelar suas experiências de vida. Sua filha está triste por conta do fora que levou do namorado? Conte sua história, mostrando a ela como conseguiu superar suas próprias decepções amorosas. Não com a intenção de dar receitas práticas de superação, mas para mostrar que você também já passou por essa dor.
Hora certa pra tudo!
Se você já orientou sua filha quanto aos cuidados de segurança e proteção ao andar pelas ruas, por exemplo, não repita o mesmo mantra sempre que ela for sair de casa. Esse comportamento costuma causar irritação e pode ser interpretado como incompetência em lidar com as situações.
Valorize o positivo!
É importante que mães e filhas não vejam somente o lado de conflito nessa relação. Duas pessoas que são tão próximas durante tanto tempo têm certamente uma história de mágoas. Mas, por outro lado, têm uma história de humor, recordação, linguagem compartilhada e uma profunda preocupação com o bem-estar da outra, que pode tornar suas conversas mais íntimas e mais confortáveis do que com qualquer outra pessoa.
O Lado Positivo

Conflitos domésticos à parte, o certo é que a opinião materna tem um peso enorme no desenvolvimento da auto-estima da filha, principalmente em relação à aparência. Isso ficou evidente num estudo encomenda do pela Unilever, detentora da marca Dove, com 3.300 mulheres de dez países. Ficou constatado que é no Brasil que as mães exercem a maior ascendência sobre suas filhas, sobretudo as adolescentes. De acordo com a pesquisa, 57% das meninas entre 15 e 17 anos reconhecem a mãe como a principal influenciadora na formação de sua auto-imagem física e sua auto-estima. "Mais do que as amigas e a mídia", confirma o psicólogo Marco Antonio de Tommaso. No dia-a-dia, isso significa que, se uma mãe se mostra satisfeita com sua aparência, a filha tende a sentir o mesmo em relação a si própria. Só que o inverso também é verdadeiro. Ter uma mãe que só se alimenta de água e alface para manter o peso, que vive fazendo cirurgias plásticas para se manter jovem e, mesmo assim, nunca está contente com o que vê no espelho, repassa uma mensagem também negativa para a filha. Isso pode gerar uma baixa auto-estima e, por tabela, levar a adolescente a quadros de distúrbios alimentares, segundo especialistas.
Fonte: Revista Coop Mai/2008



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