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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Tal mãe, tal filha


Das quatro possíveis constelações entre pais e 
filhos, a relação entre mãe e filha é a mais intensa, delicada e permeada de sentimentos contraditórios


Se você tem uma em casa, já deve conhecer o ro­teiro. Aquela menininha, que imitava seu com­portamento ao se equilibrar em saltos altos ou lambuzar os lábios de batom, é a mesma garota que hoje, na adolescência, se mostra contrária a tudo que você pense, diga ou faça. Tanto é que basta um sim­ples comentário sobre o cabelo, por mais bem intencionado que seja, para o circo pegar fogo em intermi­náveis discussões. Essa convivência complicada, per­meada de alegrias e tristezas, de afetos e rancores, de compreensão e cobrança, não é exclusividade de sua família. Acontece em todos os lares onde residam duas mulheres nas figuras de mãe e filha. E, por incrí­vel que possa parecer, é normal e saudável.


Para entender melhor essa história é preciso saber que a mãe é, para a filha, a primeira referência do que é ser mulher. 

Por volta dos cinco anos de idade, a crian­ça passa a perceber que, por trás daquela figura que lhe dá cuidados e proteção, existe uma mulher. Por isso é tão comum as meninas nessa idade imitarem o comportamento da mãe. Só que na fase da adoles­cência ocorre a grande transformação no relaciona­mento entre as duas, pois a garota passa a fazer forte oposição à mãe devido à necessidade de auto-afirma-ção. Daí começam a surgir os tradicionais conflitos, desencadeados por inúmeros fatores.


Um deles é que mães e filhas são criaturas extrema­mente próximas, observam-se e analisam-se num ní­vel intenso e, por isso mesmo, acabam enxergando fa­lhas e defeitos que ninguém mais vê."E dão-se ao direito de mencioná-los", interpreta a pesquisadora e escritora americana Deborah Tennen em seu livro “Vo­cê vai sair assim? Como entender a relação entre mãe e filha” (editora Campus/ Elsevier). 
Segundo ela, essa dupla de mulheres espera tanto uma da outra que a frustração é proporcionalmente grande quando as expectativas não são atingidas.

Conversa pra lá, conversa pra cá A proximidade entre elas, de acordo com a autora, é fortalecida pelas frequentes conversas e confidências trocadas ao longo da existência, algo bem diferente do que ocorre nas relações pai e filho ou pai e filha, por exemplo. Quanto mais conversam, maiores as oportu­nidades tanto para estabelecer ligações afetivas quan­to para equívocos de comunicação e mágoas. "A con­versa é a cola que mantém o relacionamento e tam­bém o explosivo que pode acabar com ele", sentencia a escritora.

As frequentes explosões durante as conversas entre elas geralmente acontecem por conta de enganos na interpretação das palavras. Onde a mãe vê cuidado, seja com a saúde ou a segurança, a filha enxerga crí­tica. É o caso da mulher, por exemplo, que vive suge­rindo à garota maior cuidado com a influência de seu círculo de amigos. Esse comentário materno, visando proteção, é visto pela filha como uma crítica à sua falta de competência na escolha das amizades. "São essas diferentes interpretações que tornam a frustra­ção tão comum entre elas", explica a autora.

Leia agora outros conselhos de especialistas em com­portamento que podem melhorar o relacionamento entre mãe e filha.



Aprenda a falar!
Muito cuidado com meias palavras. Ao fazer um comentário ou sugestão à adolescente, ex­presse com todas as letras o que você quer dizer. Des­sa forma, as possíveis falhas de interpretação 
podem ser minimizadas.

Veja por outro prisma!
Comece a ver com outros olhos as reações exageradas de sua filha a seus conselhos ou comentários. "Para a filha, a mãe é maior do que a vida. Justamente por isso, qualquer julgamento que venha dela pode parecer uma sentença eterna", expli­ca a pesquisadora americana. Filme repetido: cada dupla de mãe e filha é reedita­da na geração seguinte. Portanto, dificuldades e con­flitos devem ser elaborados e trabalhados para não se repetirem mais adiante.

Conte sua história!
Aproveite as situações do dia-a-dia para revelar suas experiências de vida. Sua filha es­tá triste por conta do fora que levou do namorado? Con­te sua história, mostrando a ela como conseguiu supe­rar suas próprias decepções amorosas. Não com a in­tenção de dar receitas práticas de superação, mas pa­ra mostrar que você também já passou por essa dor.

Hora certa pra tudo!
Se você já orientou sua filha quanto aos cuidados de segurança e proteção ao an­dar pelas ruas, por exemplo, não repita o mesmo mantra sempre que ela for sair de casa. Esse comporta­mento costuma causar irritação e pode ser interpreta­do como incompetência em lidar com as situações.

Valorize o positivo!
É importante que mães e filhas não vejam somente o lado de conflito nessa relação. Duas pessoas que são tão próximas durante tanto tempo têm certamente uma história de mágoas. Mas, por outro lado, têm uma história de humor, recorda­ção, linguagem compartilhada e uma profunda preo­cupação com o bem-estar da outra, que pode tornar suas conversas mais íntimas e mais confortáveis do que com qualquer outra pessoa.

O Lado Positivo

Conflitos domésticos à parte, o certo é que a opinião materna tem um peso enorme no desenvolvimento da auto-estima da filha, principalmente em relação à aparência. Isso ficou evidente num estudo encomenda do pela Unilever, detentora da marca Dove, com 3.300 mulheres de dez países. Ficou constatado que é no Brasil que as mães exercem a maior ascendência sobre suas filhas, sobretudo as adolescentes. De acordo com a pesquisa, 57% das meninas entre 15 e 17 anos reconhecem a mãe como a principal influenciadora na formação de sua auto-imagem física e sua auto-estima. "Mais do que as amigas e a mídia", confirma o psicólogo Marco Antonio de Tommaso. No dia-a-dia, isso significa que, se uma mãe se mostra satisfeita com sua aparência, a filha tende a sentir o mesmo em relação a si própria. Só que o inverso também é verdadeiro. Ter uma mãe que só se alimenta de água e alface para manter o peso, que vive fazendo cirurgias plásticas para se manter jovem e, mesmo assim, nunca está contente com o que vê no espelho, repassa uma mensagem também negativa para a filha. Isso pode gerar uma baixa auto-estima e, por tabela, levar a adolescente a quadros de distúrbios alimentares, segundo especialistas.

Por Ivanilde Sitta      
 vani@escrita.net
Fonte: Revista Coop Mai/2008